Dores 1 – O começo

O COMEÇO

Não tenho certeza se eu já tinha quatro anos e, infelizmente, acho que não há alguém vivo capaz de me esclarecer. Mas o que importa é que lembro de estar brincando com minha irmã Cláudia (um ano e sete meses mais velha do que eu) no chão da copa da casa da minha avó. Deve ter sido uma daquelas brincadeiras que irritam os adultos, por excesso de movimento e barulho. Lembro de levantar rapidamente e tentar sair correndo, mas a Cláudia segurou o meu pé. Caí e quebrei o braço. Não tenho lembrança da dor que certamente senti.

Meu pai e minha mãe me levaram à Clinica de Fraturas, que ficava ao lado da Estação Rodoviária de Curitiba (atual Terminal Guadalupe). Lembro que era uma casa antiga e de entrar em uma grande sala pouco iluminada, onde tinha uma mesa em que estava sentado o médico, Dr. Osny Preuss. O próximo registro em minha memória é do braço engessado, sem nenhum detalhe.

Muito mais tarde, meu pai me contou que naquela noite o Dr. Osny lhe disse que iria tratar da fratura, mas que queria falar com ele em seguida sobre algo que havia observado no meu jeito de caminhar. O competente e cuidadoso ortopedista acabara de diagnosticar minha luxação congênita de quadril, apenas por me ver andando. Os médicos dizem que o “andar de pato” é característico da luxação.

Examinando o segundo raio-x da minha vida (o primeiro foi do braço quebrado), Dr. Osny confirmou o diagnóstico e recomendou a meu pai que me levasse a São Paulo, para consultar especialistas, recomendação que foi rapidamente atendida.

Fomos a São Paulo de ônibus. Tenho esparsas lembranças da viagem, que acho que foi pela Estrada da Ribeira, pois a BR-2 (atual BR-116) ainda não havia sido inaugurada (o que me leva a crer que eu tinha três anos, pois a BR-2 foi inaugurada em 1961). Lembro do hotel em que ficamos, na Praça Júlio de Mesquita e de meu pai me mostrar pela janela uma encantadora máquina varrendo a pequena praça, o que era algo inusitado e curioso para mim. Lembro bem da viagem de volta, porque viajamos de avião e isto era algo muito importante na época.

Não tenho nenhuma lembrança das consultas em São Paulo, mas meu pai recebeu de um dos médicos a recomendação de consultar um jovem ortopedista de Curitiba, que havia se especializado em cirurgias de quadril.

Era o Dr. Hamilton Córdova. Lembro muito bem do seu consultório, que ficava no pátio interno do Hospital São Lucas, em Curitiba, assim como lembro vivamente da sua fisionomia. Era um homem alegre, fã de automobilismo e tinha um Willys Interlagos (que era deslumbrante para mim). Lembro também dos detalhes da sala de Roentgen Diagnóstico (Raio X) do São Lucas. Era uma sala com pé direito alto, com pintura verde claro e uma única luminária no centro, com luz amarelada, que fazia com que o ambiente fosse sempre sombrio. Não sei quantas vezes “fiz chapas” naquela sala, antes e depois da cirurgia.

Eu tinha quatro anos quando fiz a primeira cirurgia. Lembro muito bem de estar deitado na maca, no corredor que dava acesso ao centro cirúrgico. Paredes brancas, piso de cimento polido com aquelas pequenas pedrinhas pretas, com cantos arredondados. A parede direita do corredor tinha janelas bem altas, que davam para o pátio interno. O meu avô Nady Miró (amoroso, querido e bem humorado parceiro) estava comigo, segurando a minha mão. Os meus pais não estavam ali naquele momento, e, muito tempo depois, cheguei à conclusão de que eles não conseguiram ficar ali contendo a ansiedade e o choro angustiado. Por isso meu avô assumiu. Quando os enfermeiros vieram me buscar, eu me agarrei à mão dele e repeti algumas vezes “Não deixe eles me levarem, Vô!!”.

Depois disso, as próximas lembranças são já no quarto. Cama alta de hospital, paredes e luminária como na sala de raio-x. A porta ficava do meu lado esquerdo e à minha direita tinha uma janela, que dava para a Av. João Gualberto. Às vezes sentia o inebriante cheiro da fábrica de biscoitos Lucinda e, ao anoitecer, dava para ver duas estrelas que se destacavam, que eu achava que eram meu avô e vinha avó paternos (Vovozinho e Vovozinha), que não conheci. Tinha um auxiliar de enfermagem que eu chamava de “Risadinha”, porque era um homem muito alegre e agradável. Sempre sorrindo. Não tenho lembrança de qualquer dor, mas meu pai me contou que eu batia nele porque sim, eu sentia muita dor.

Como esperado, saí do hospital com um “pijama de gesso”, que ia dos dois pés até o peito, com as pernas muito abertas. Foram seis meses imobilizado, tendo trocado o gesso duas ou três vezes, para mudar a posição das pernas. As lembranças que tenho daquele período são poucas, mas muito vivas e detalhadas.

O tio Iamar, irmão de meu pai que morava em Salvador, veio para Curitiba de Jipe com sua esposa, a tia Noemi. Ela usava uma sandália que deixava os dedos dos pés à mostra. Eu tinha ganho uma espingarda de rolha e o meu avô trocou o barbante da rolha por um bem longo, a meu pedido. Assim eu pude dar uns tiros de rolha nas unhas vermelhas da tia Noemi. Aliás, não sei em que mês fui operado, mas a lembrança das sandálias da Tia Noemi me faz supor que era verão.

No começo, eu ficava deitado, mas depois de algum tempo o Vô Nady fez uma banqueta alta, com o assento em forma de cela e estofamento vermelho (ou laranja, segundo a Cláudia), onde eu podia ficar sentado (a cavalo), se alguém me pusesse lá.

Durante o tempo em que fiquei imobilizado, meu pai comprou nossa primeira TV. Curitiba contava com apenas duas estações: TV Paranaense Canal 12 e TV Paraná Canal 6, mas a transmissão só começava às quatro da tarde.

Eu passei a maior parte do tempo livre da minha infância na casa da Vó Carmella. Nossa casa ficava na rua Inácio Lustosa, que tinha muito movimento de carros. A “casa da vó” era na rua Piquiri e, por ter muito menos movimento, eu tinha mais liberdade. Podia brincar na rua e tinha amigos na vizinhança. Um dia pedi que levassem meus amigos para me visitar e ficar um tempo comigo. O Tio Miró (irmão de minha mãe, meu grande amigo a quem amo muito), que tinha 20 anos, foi encarregado de trazê-los. Como ele não sabia quem eram meus amigos, ele juntou os piás que encontrou na vizinhança e levou lá em casa. Meus amigos não estavam entre eles.

Acredito que minha situação deixava os adultos constrangidos, de certa forma. Diversos deles faziam brincadeiras comigo, mas eu lembro de duas: minha mãe dizia: “Guri lambari, qué apanhá, venha aqui!” e minha avó cantava:

Vem cá Bidú, vem cá, Bidu

Vem cá, vem cá, vem cá

Não vou lá, não vou lá, não vou lá

Tenho medo de apanhar.   (clique para ouvir)

Um momento muito marcante e vivo na minha memória é de quando dei o primeiro passo depois de tirar o gesso. Depois de tanto tempo imóvel, quando tirei o gesso, minhas pernas estavam finas, fracas e peludas. Tive que aprender a andar outra vez. Numa certa manhã, minha mãe foi ao açougue e eu estava em casa com meu pai, na cozinha. Tinha acabado de tomar o café da manhã. Ele me pôs em pé, apoiado no móvel branco em que sentávamos para comer (era um móvel com quatro gavetas e duas portas corrediças na parte de baixo, com um baú ao lado para guardar lenha, onde sentávamos), distanciou-se uns dois passos e abaixou-se, ficando de cócoras, com os braços estendidos em minha direção dizendo repetidamente “venha”, com paciência e persistência carinhosa. Tomei coragem e dei dois passos “robóticos” até ele. Foi uma conquista. Quando minha mãe voltou do açougue, ele disse “veja o que o Julinho consegue fazer” e eu dei mais dois passos. Ela ficou muito feliz e fez elogios estimulantes.

Provavelmente devo ter passado por momentos difíceis naquela fase. Devo ter reclamado, talvez chorado, mas as lembranças que tenho são do amor, carinho e cuidado que me foram dispensados. Lembranças boas e gratidão.

Tive uma recuperação muito boa e uma infância muito próxima ao que se pode rotular como “normal”. Brinquei muito, caminhei muito, corri pouco, andei muito de bicicleta, subi em muros e árvores com meus amigos. Sempre tive “andar de pato”, ou seja, eu era diferente e o problema ortopédico acabava impondo seu preço, com algumas dores.

Uma vez, em um dos meus aniversários (não sei de quantos anos, mas imagino que deve ter sido por volta dos sete), brinquei muito tempo com meus primos no quintal de casa, com bastante correria. Ao anoitecer resolvi parar de brincar e algum dos primos insistiu para que eu continuasse, mas meu pai disse “deixe ele ficar aqui porque está cansado”. Eu, então, presumi que aquilo que eu estava sentindo era cansaço. Bem depois, mais velho e com mais entendimento, concluí que aquilo que eu achava que era cansaço era a dor provocada pelo problema ortopédico.

Como a história é muito longa, vou separar em capítulos.

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1 Response to Dores 1 – O começo

  1. Avatar de Claudia Claudia disse:

    Segurei o seu pé e vc caiu perto da porta da cozinha, choro e dor… lembro que fui junto na clínica de fraturas ali no largo da antiga rodoviária (era a Rural ou na caminhonete do vô?)e vc saiu de braço engessado….” viu só? O que deu fazer aquela algazarra?” ah mas era diferente meu irmão com o braço assim…
    Os nomes Dr. Osni e Dr.Hamilton passaram a fazer parte de muitas conversas. E o meu irmão Julinho viajou de avião!!!
    E o Hospital São Lucas ? janelinhas com venezianas de madeira, comi a salada de frutas que veio de sobremesa, aquele piso preto e branco, conheci a Confeitaria Munhoz. 
    Nossa!!! Aquela folia na casa da vó…eu segurei o pé dele 
    O cavalinho de madeira com estofado laranja(.?), a TV de pezinho na sala !! 
    …………………
    Adorei Julinho, mal posso esperar pelos próximos capítulos. Você sabe envolver com seu estilo. Mergulhei no passado. Emocionou. 
    Te amo mano. 
    Bjs da Claudia

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